quarta-feira, 7 de março de 2012

Mais um...(Belo texto)


Não é sempre que eu parafraseio textos de outras pessoas, mas hoje li esse texto maravilhoso e venho compartilhar com todos.

Retirado de:
http://bicicreteiro.org/2012/03/06/quem-sera-o-ultimo-martir/


Por favor, não quero mais participar de nenhuma manifestação em memória a mais algum amigo que perdeu a sua vida no trânsito, sempre que vejo um corpo no chão, vítima da carrocracia, algo morre dentro de mim. Sexta passada, tomando para mim a mensagem da bicicleta de um amigo, foi um dia “que eu morri também”.
Mas não morri apenas ao ver o corpo da Julie coberto por um papel alumínio na Paulista, mas morri várias vezes ao ver inúmeros comentários em matérias sobre o tema. Aquele mesmo descrédito pelo ser humano que tomou conta de mim pouco antes da viagem doProjeto Biomas, retornou e com muita força.
Ela era muito estúpida em pedalar na Paulista, tinha mesmo que morrer!
Essa é só uma várias mensagens na mesma linha que consegui ler sem vomitar. Me coloco no lugar da Julie e da sua família, fico imaginando se sou eu o presenteado pelo cobertor de alumínio. Já estou vendo alguns dos meus “odiadores” despejando suas opiniões, dizendo que eu merecia morrer mesmo. Agora imaginem meu filho, depois de perder o pai, ainda ter que ler uma mensagem dessa. Não dá para dizer que todos são assim, mas definitivamente há uma parcela considerável de pessoas que pensam dessa maneira.
Essas sim são pessoas perigosas, que nutrem um ódio irracional pelos ciclistas, pelo simples fato de estarmos em evidência. É claro que percebo que de uns anos para cá o comportamento da maioria dos motoristas mudou para melhor, mas também aumentou a quantidade de motoristas que não concordam com as leis, não acham correto dividir espaço conosco e muitas vezes motivados por matérias toscas e tendenciosas como essa (na integra para assinantes aqui), podem se sentir encorajados a tentar fazer (in)justiça com suas próprias mãos, nesse caso, com seu próprio volante.
Nem preciso ir muito longe, tem um tal de Silvio Pereira que enche meu saco desde que fui preso durante o WNBR de 2008. O cara não pode me ver dando uma entrevista na mídia para tentar me massacrar, chegando ao cúmulo de me acusar de querer tirar proveito da morte da Julie. Infelizmente não conheço pessoalmente essa figura que sonha em me “desmascarar”, como se fosse eu quem está se escondendo na internet. Mas ainda bem que as palavras deles são ditas sob a proteção do computador, pois ditas pessoalmente poderia significar uma tragédia.
Mas a estupidez humana não acaba aí, lembram daquele professor de Santos que estava fazendo um trabalho para provar que a bicicleta não é um meio de transporte? Pois bem, bastou saber da morte da Julie que voltou a atacar me mandando uma mensagem reforçando sua tese. Segundo ele, como a bicicleta não tem controle por parte do estado, não deve dividir espaços com motoristas. Já o ciclista que assim o faz deve ser responsabilizado por qualquer acidente.
Segundo ele, cidades como Londres, Paris, Dinamarca, apesar de não terem nenhum controle sobre as bicicletas, lá a bicicleta pode ser considerada um meio de transporte. O motivo não entendi direito, só porque eles tem uma melhor infraestrutura de mobilidade pública? Vai ver é porque eles são mais loiros e tem olhos mais azuis que nós, mas aqui no Brasil, onde tem mais gente andando de bicicleta do que de carro, não pode porque ele “acha” que não pode.
Segundo a tese dele, a Juliana tem que ser responsabilizada pela sua morte, pois ela estava errada em dividir a pista com os demais. Triste essa sordidez humana, para justificar uma tese absurda, que inclusive contraria as leis brasileiras, o indivíduo usa uma tragédia para se promover. O que ele quer? Retirar todos os ciclistas do Brasil das suas bicicletas para que eles passem a pagar para se locomover, seja usando o transporte público ou usando nossos poluidores carros de passeios.
Como estupidez pouca é bobagem, apesar de muitos não acreditarem, hoje temos pessoas de alto escalão na prefeitura fazendo o máximo que eles podem pelos ciclistas. Não darei os nomes das pessoas para preservá-los, até porque isso foi um papo pessoal, mas não é que essa pessoa recebeu uma ligação de outra importante autoridade do poder público dizendo o seguinte:
Essa menina morreu por culpa sua, graças sua história de tentar incentivar essa molecada a pedalar!
Estou péssimo, triste saber que vivo no mesmo planeta com pessoas tão desumanas. Como será que essas pessoas reagiriam caso uma tragédia como essa ocorresse em suas famílias? Como eles receberiam os comentários estúpidos dizendo que seus filhos ou filhas mereceram morrer? Pra que apostar na máxima de que “Coisas ruins só ocorrem na família dos outros”, torço para que continue assim para eles, pois não desejo essa dor ao meu maior inimigo.
Depois de tantas manifestações estúpidas, resolvi deixar aqui minha mensagem. Apesar do meu blog ser lido basicamente por ciclistas, gostaria mesmo é que essa mensagem chegasse a todos aqueles que lutam para erradicar as bicicletas das ruas como se elas fossem pragas:
Se você “acha” que eu não devo pedalar, que lute para mudar as leis do país que você vive e não use o seu achismo para justificar o uso do seu veículo como arma para cima de mim. Eu não acho correto as pessoas dirigirem veículos que poluem, não acho correto dirigir veículos motorizados barulhentos e em velocidades altas que atentam a vida humana, mas nem por isso eu tento impedir as pessoas de usufruírem do seu direito de dirigir um carro.
No máximo peço para que o façam com prudência, como manda a lei. Não consigo entender como alguém pode se incomodar em dividir espaço com outro ser não motorizado na rua, entendam de uma vez por todas, a rua é de todos e IPVA significa imposto sobre propriedade de veículo e não de PROPRIEDADE DA RUA!
Eu pedalo porque eu quero, porque me faz bem e principalmente PORQUE É MEU DIREITO! Pedalar me faz muito bem mesmo, graças à bicicleta consigo sair de casa mesmo sem dinheiro. Graças à bicicleta, sequer tenho plano de saúde. Graças à bicicleta já me livrei há anos do sofrimento que é pagar o IPVA. Graças à bicicleta tenho praticamente o mesmo corpo que eu tinha com 20 anos. E graças à bicicleta não tenho problemas de impotência como o que ocorre com alguns amigos da mesma idade que não pedalam e levam uma vida sedentária (o carro com certeza ajuda nesse padrão de vida que eles escolheram).
E o mais importante, graças a bicicleta eu acabo ajudando outras pessoas a pedalarem, a vivenciar a mesma experiência de liberdade que sinto diariamente. É bom saber também que de alguma forma acabo ajudando a diminuir o número de carros as ruas. Uma diminuição que ajuda a reduzir o número de mortes causadas pela poluição, acidentes e até mesmo pelo stress e sedentarismo que o uso do carro proporciona.
Isso sem falar na transformação que ocorre na maioria dos motoristas que passam pela experiência de se ver sobre uma bicicleta. Quem daqui não passou a agir de forma mais prudente, ao guiar seu carro, após a experiência de um dia de pedal na Ciclofaixa, numa cicloviagem? Não tem melhor maneira de tirarmos o manto da invisibilidade dos ciclistas do que colocando motoristas sobre uma bicicleta.
Mas e quando perdemos alguém importante? Sempre que um ciclista morre eu fico destruído, mas se existe algo para me confortar é saber que enquanto em 2005 tivemos 93 ciclistas mortos no trânsito, no ano passado esse número foi de 49, em tese mais de 40 famílias deixaram de chorar porque hoje está mais seguro para se pedalar.
Estamos longe do ideal, mas inegável dizer que não melhorou de uns anos para cá, por isso que vemos tantas pessoas pedalando hoje em dia e não apenas a classe média, mas principalmente o povão que esta descobrindo uma excelente alternativa ao busão caro e cheio. Vivemos um momento de transição e esses momentos sempre serão tensos e difíceis, até porque há um número substancial de pessoas que não querem perder a falsa sensação de poder que o carro lhes proporciona.
Fico feliz em ver que nossa cidade hoje está mil vezes melhor para se pedalar, fico feliz em ver uma galera da prefeitura se desdobrando para (na velocidade deles) fazer algo pela bike na cidade, fico feliz em ver uns mil ciclistas se reunindo com poucas horas de mobilização, para homenagear a Juliana, fico feliz em ver uns 500 ciclistas pelo menos encarando a pé aquela tempestade que caiu sobre nós. A mesma tempestade que nos visitou três anos antes, quando estávamos a 200 metros do local, chorando a perda da querida Márcia Prado.
A única coisa que irei concordar com esses intolerantes é que há riscos em se pedalar. Mas haver riscos em pedalar não significa que pedalar é perigoso, que a bicicleta é perigosa. O Ciclista é FRÁGIL, como o pedestre também é frágil. Dirigir de forma imprudente é perigoso, já pedalar não.
Por isso vou continuar pedalando, vou continuar lutando para uma cidade mais justa, não apenas com o ciclista, mas com todo mundo que não se desloca de carro, até porque para os motoristas essa cidade já é boa até demais.
Mas não quero mais mártires, não quero mais ver nenhum ciclista (conhecido ou não) perder sua vida nesse trânsito que já foi muito mais assassino do que é hoje, mas sou realista e sei que isso poderá ocorrer durante esse período de transição. Mas o que podemos fazer?
Quero ver essa cidade continuar mudando para melhor, de preferência sem mais mortes estúpidas, por isso o apelo a todos, inclusive àqueles que não querem que a gente pedale. Deixem a gente pedalar, nos deixem exercer nosso direito com segurança, até porque a maioria das mortes de ciclistas podem ser evitadas pelos veículos maiores.
E ciclistas, não vamos deixar de pedalar, sabemos que com menos ciclistas nas ruas elas ficam mais perigosas para nós e não dêem voz a aqueles que alegam existir uma guerra entre ciclistas e motoristas, sabemos que isso não existe. Você que acha que a maioria dos motoristas não nos respeitam, passe a prestar atenção, comece a contar quantos motoristas tomam atitudes protecionistas e relação a nós, vai se surpreender com o resultado.
Os bons são maioria, pessoas de bem querem viver em paz, vamos nos unir àqueles que querem conviver pacificamente conosco no trânsito. Todos têm o direito de escolherem sua forma de se deslocar. Se a pessoa quer dirigir, problema dele, pois se o fizer com prudência qual o problema?
Vamos continuar nos espelhando nos bons exemplos e continuar lutando para trazer “os que querem pedalar” para o nosso mundo, não vamos gastar energia com quem não quer pedalar. Como minha avó já dizia, “Pra que gastar vela com defunto ruim?”
Vamos também dar o exemplo, sei que as vezes é difícil conter nossa agressividade e revolta, mas vamos agir com a inteligência que falta a esses intolerantes, até porque somos nós os que mais tem a perder se entrarmos nesse clima de guerra que alguns querem criar.
Deixemos a raiva longe da bicicleta, vamos continuar pedalando com sorriso no rosto, pois é esse sorriso vai contagiar os potenciais ciclistas. Vamos levar a eles a coragem que os faltam para realizarem a mesma escolha que fizemos um dia e que hoje nos faz tão bem.
André Pasqualini



Espero que acrescente a todos